O Povoamento do Seridó
Todo o povoamento do sertão nordestino, feito pelo colonizador português, está ligado diretamente à formação e à expansão dos ciclos do gado e do algodão.
A demanda do açúcar no mercado internacional, durante os séculos XVI e XVII, determinou a expansão da cultura canavieira na Zona da Mata e, parcialmente, no agreste nordestino.
Os numerosos conflitos entre plantadores de cana e criadores de gado, nas áreas ocupadas predominantemente pelos canaviais forçaram o governo colonial a estabelecer uma divisão espacial do trabalho: a Zona da Mata para o plantio de cana-de-açúcar e o Sertão ficou reservado à pecuária. Uma Carta Régia de 1701 proibiu a criação de gado a menos de 10 léguas da costa.
Desta maneira, as partes em conflito passaram à coexistência pacífica. E, por outro lado, a pecuária sertaneja se desenvolveu, pelo menos na sua fase inicial, como uma economia de subsistência e complementar à economia açucareira.
Foi, por conseguinte, o ciclo do gado que impulsionou o povoamento do sertão nordestino e, dentro dele, a região do Seridó, mediante a instalação de currais de gado.
À medida que os portugueses avançavam do litoral de Pernambuco e da Paraíba em direção ao interior, tomando as terras dos índios e nelas construindo currais de gado, estes iam recuando para o sertão e apresentando resistências.
A batalha decisiva entre indígenas e colonizadores, chamada pelos historiadores "A Guerra dos Bárbaros (1687-1697)", foi travada principalmente no vale do Açu e Apodi. Entretanto, ela estendeu-se também ao Seridó, onde, em Acauã (hoje Acari), os índios cariris e caicós lutaram bravamente contra os colonizadores.
Somente após a vitória dos portugueses (1697) é que foi possível o povoamento definitivo do Seridó e demais micro-regiões do sertão potiguar.
Após paciente e monumental pesquisa, Olavo de Medeiros Filho concluiu que, "além de pessoas anteriormente radicadas nas capitanias do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, afluíram ao Seridó elementos advindos do reino, os quais se tornaram os fundadores de estirpes, que viriam a se constituir na elite local, econômica e política da região". Conforme ainda o referido autor, os portugueses que vieram de Portugal para o Seridó eram naturais dos Açores, do Minho, do Douro, da Estremadura e do Trás-os-Montes.
A reduzida miscigenação entre os colonizadores e os indígenas, permitiu que o seridoense descendente de famílias tradicionais conservasse um biótipo ainda hoje bem diferente daquele dos habitantes de outras micro-regiões do Rio Grande do norte. Daí porque o seridoense é um tipo alto, às vezes alourado, branco e de olhos azuis, que muito contrasta com o biótipo do norte-rio-grandense do litoral
Conforme ainda o genealogista Olavo de Medeiros Filho, a região do Seridó foi povoada pelas seguintes famílias: Ferreira das Neves, Araújo Pereira, Rodrigues da Cruz, Pereira Monteiro, Garcia de Sá, Alves dos Santos, Azevedo Maia, Lopes Galvão, Rocha Gama, Fernandes Pimenta e Carneiro de Freitas.
De cada um destes troncos surgiram várias outras famílias, que se perpetuaram no espaço e no tempo da realidade seridoense.
Considerando que era costume bastante arraigado na sociedade brasileira do período colonial, o casamento entre parentes, infere-se deste fato que a região do Seridó apresenta, ainda hoje, um elevadíssimo grau de endogamia.
Fontes: Livros - "História da Paraíba, João Pessoa. Editora Universitária/UFPB, vol. 2, 1978, p. 22. - "Velhas Famílias do Seridó, de Olavo de Medeiros Filho, Brasília, Centro Gráfico do Senado Federal, 1981, 475 páginas.
Lendas sobre a Origem da Cidade
É muito difícil saber-se, com certeza, a origem da cidade de Caicó, por causa do emaranhado de lendas em que está envolvida a sua história. Há vários trabalhos a este respeito e cada um descreve, de modo diferente, o início da habitação desta região do Seridó. Essas lendas ou relatos, já bem conhecidos de nossos historiógrafos, têm sua fonte na memória popular dos mais antigos moradores da Cidade, parecendo tratar-se, no entanto, de versões diferentes de uma mesma história. Seguem-se abaixo os relatos conhecidos sobre a origem de Caicó:
Primeiro relato:
No lugar onde hoje é a cidade de Caicó, o que havia era só mofumbo. No entanto, certa vez, durante a seca, apareceu por lá um fazendeiro de Jardim de Piranhas, procurando um touro que há dias havia desaparecido do curral. Encontrou-o nesta mata de mofumbos, mas o animal, parecendo um demônio, marchou furioso para derrubar cavalo e cavaleiro. Este correu apavorado, fugindo da perseguição do touro, lembrando-se, porém, na aflição, de fazer promessa de uma capela à Senhora Sant'Ana, no lugar onde o touro o abandonasse. Foi então que, olhando para trás, viu que o animal desaparecera, seguindo outro caminho.
O fazendeiro voltou ao sítio de Jardim de Piranhas e, expondo o ocorrido a seus trabalhadores, estes se prontificaram a construir a Capela, exatamente no local onde está, hoje, a Catedral de Santana de Caicó. Construída a Capela, foi fácil, mais tarde, aparecerem às habitações que deram início à atual cidade
Segundo relato:
Este foi contado de modo diferente. Segundo o relato, este tal fazendeiro vinha de Acari e não de Jardim de Piranhas. Perdido no intrincado mofumbal existente às margens do Rio Seridó, e sem acertar a saída, o fazendeiro ajoelhou-se e fez a promessa a Sant'Ana de construir uma capela naquele lugar, caso conseguisse encontrar o caminho de volta. Então assinalou com uma cruz o local da promessa. Montou o cavalo e este, de rédeas soltas, descobriu uma vereda, reconduzindo-os até o caminho de volta para o Acari.
Dias depois, retornando ao local, o fazendeiro rico mandou construir a capelinha.
Terceiro relato:
Estas versões, e mais outra narração, uma espécie de síntese das duas, nos permitem compreender ter sido um boi o causador da fundação da cidade. Entretanto, no livro "Denominação dos Municípios", de MANUEL DANTAS, encontra-se outro relato para a origem da cidade, sendo impossível obter informaçôes em virtude de ter sido esquecido pela memória popular. Segue-se o relato:
"Quando o sertão era virgem, a tribo dos "Caicós", célebre por sua ferocidade e que se julgava invencível porque Tupã vivia ali, encarnado num touro bravio que habitava um intrincado mofumbal, existente no local onde hoje está situada a cidade. A tribo foi destroçada, mas o misterioso mofumbal, morada de um deus selvagem, permaneceu intacto.
Certo dia, um vaqueiro inexperiente penetrou no mofumbal, vendo-se, de repente, atacado pelo touro sagrado. O vaqueiro, no entanto, lembrou-se de fazer voto a N. S. Sant'Ana de construir uma Capela ali, se a Santa o livrasse a tempo do perigo. Milagrosamente o touro desapareceu e o vaqueiro, tão logo possível, desmatou a área e iniciou a construção da capela."
A tradição oral há muito esqueceu da tribo, no entanto têm-se como certo o fato de que a região foi habitada pelos índios Caicós, que deram o nome ao lugar.
O Fundador da Cidade
Portanto, conforme se deduz desses relatos, Caicó começou pela construção de sua capela. Enquanto os anos se passavam, aumentavam as construções de casas ao redor, seja porque muitos queriam ver a capela do fazendeiro que fora salvo milagrosamente por Sant'Ana, ou porque o local era atraente em virtude da fecundidade das terras, banhadas pelas águas de dois rios.
Depois que a capela foi transformada em Igreja e aumentou o número de habitantes, mais casas foram erguidas e em alinhamento, dando origem à Rua da Matriz, que antigamente se chamava Rua Marquês de Herval, a primeira rua de Caicó.
Conforme informações do Sr. Adelino Pereira de Medeiros, prestadas ao Pe. Eymard L'E. Monteiro e que foram utilizadas como base para seu livro "Caicó - Subsídios para a história completa do Município" (1945, Escola Sales, Recife-PE), o nome do fundador da cidade de Caicó foi Manuel de Sousa Forte, português e primo do também português Gama, e que era dono das terras onde hoje está edificada a cidade.
Em 1725, o Sr. Manuel de Sousa Forte mandou edificar uma capelinha e nela colocou um pequeno vulto de Sant'Ana. Segue-se abaixo o relato do Sr. Adelino: "Manuel de Sousa Forte residia às margens do rio Seridó, possuindo uma grande fazenda de escravos e muitos bens. Nos anos de seca, a água se tornava muito difícil e o gado tinha que ir beber num lugar chamado "Pelo Sinal", distante cerca de duas léguas. Religioso, Forte fez então um "voto" a Sant'Ana, prometendo erigir-lhe uma Capela, caso encontrasse água com facilidade no leito arenoso e seco do rio. Depois, notando certa umidade em volta de uma pedra, exatamente onde hoje é o poço de Sant'Ana, cavou e apareceu água. Então, o fazendeiro Manuel de Souza Forte cumpriu a promessa e construiu a Capela."
Conforme esse relato do Sr. Adelino, não houve touro bravio nem misterioso, nem vaqueiro, inclusive sendo engano uma das opiniões correntes que atribuem a fundação da cidade ao português Gama.
Os Topônimos do Município
A atual cidade de Caicó chamava-se, primitivamente, "Povoado Seridó", conforme alvará de 1748 que lhe deu esta denominação, e permaneceu até 31 de julho de 1788, data em que o povoado foi elevado à categoria de vila.
Por solicitação do Ouvidor Geral da Câmara da Paraíba, Desembargador Antônio Felipe de Andrade Brederodes, o Capitão General de Pernambuco, Dom Tomaz José de Melo, elevou o referido povoado à categoria de "Vila Nova do Príncipe", em 31 de julho de 1788.
Este nome foi dado em homenagem a Dom João, rei de Portugal, conhecido na História do Brasil por Dom João VI.
No dia 12 de novembro de 1868, os deputados provinciais, Bartolomeu Leopoldino Dantas e
Dr. Jerônimo Cabral Raposo da Câmara, apresentaram um projeto criando a "Cidade do Príncipe". E aos 15 de dezembro de 1868 o governador da Província, Manuel José Marinho, assinou a Lei Provincial n.o 612, elevando a "Vila Nova do Príncipe" à categoria de cidade com o nome de "Cidade do Príncipe".
Chamou-se "Cidade do Príncipe" até o dia 1.o de fevereiro de 1890, data em que, pelo Decreto n.o 12, esse nome foi mudado para "Seridó", topônimo que teve não mais que cinco meses e seis dias de existência legal.
O atual nome da cidade - Caicó - surgiu através do Decreto 33, de 07 de julho de 1890.
O primeiro documento a registrar o nome Caicó é o que faz referência à data de terra requerida pelo Capitão Inácio Gomes da Câmara, aos 07 de setembro de 1736, no Sítio Caicó, no Riacho do Seridó.
No seu dicionário da língua Tupi-Guarani, Lemos Barbosa diz que a palavra Caicó pertence à língua Cariri e que significa Mato Ralo. Na verdade, esta região era habitada pelos índios Caicós, da família dos Cariris.
Sabe-se que os índios que habitavam o lugar, denominaram-no de "Macaco Esfolado" (Cai-icó) por causa dos serrotes cuja vegetação era desmatada.
Fontes: - Artigo publicado pelo Dr. Francisco de Assis Medeiros, no jornal "A Folha" de Caicó, de 15.04.67, págs. 02 e 04.
História do Rio Grande do Norte, de A. Tavares de Lyra. |